Dentro do teu olhar azul
Foi num desses finais de tarde de Verão em que o restolhar histérico das asas das gaivotas se confundia com o som das ondas do mar a bater incessantemente na areia da praia, que descobri o quanto me fazes falta deste lado de fora do coração, para onde entraste sem pedir licença e onde, sem que desse conta, adormeceste durante tantos meses na mais soturna e vazia solidão que é a dos amantes platónicos.
O tempo parece não querer passar quando não te vejo, meu amor, e quando chego atrasado aos nossos encontros ainda me dizes que tenha calma, que pacifique o coração, que aprenda a dar mais tempo ao tempo e que nunca há horas perdidas, muito menos espaços em branco, — foi essa a desculpa que deste no outro dia, e ainda no outro, e na semana passada também — mas eu acredito em tudo aquilo que me dizes, senão mesmo porque a tua voz doce e serena já é por si mesma tão infinita como o amor, onde se contam sempre todos os minutos, todos os segundos, todos os leves suspiros que me deixas largar para o ar a cada vez que olhas para trás e lanças um breve aceno final a simbolizar uma partida que quase nunca tem agendada data de regresso.
Mas sabes, foi assim que aprendi a conviver com o tempo que nos separa e foi assim que comecei a fazer das simples esperas, umas estúpidas esperas esperadas. É que nós homens temos o mau hábito de treinar ao longo da vida estes mecanismos da complicação e, como não raras vezes somos capazes de enfrentar os problemas, procuramos sempre transformar a solidão numa espécie de catástrofe imaginária que nos ajuda a esquecer tudo aquilo que mais amamos ou tememos.
Às vezes, só mesmo muito de vez em quando, interrogo-me onde é que vou buscar tanta força para domesticar essas mesquinhices que me tomam o corpo e sacodem a alma. Nunca encontro a resposta. Julgo estar a ganhar terreno para chegar até ti, mas distancio-me cada vez mais. Sinto-te longe, tão longe, mesmo quando até estás do meu lado. E, sem nunca desistir, encosto a cabeça ao teu ombro antes de me largar num choro piegas e infantil, rapidamente abafado pelas tuas palavras proferidas com instinto maternal de quem tem um filho a quem roubaram o cão.
Porém, meu amor, é no teu olhar azul que encontro a paz. É nos teus passos que eu encontro um caminho. É na tua voz pausada que eu encontro a luz. A mesma luz que se extinguiu em mim no dia que fizeste as malas e disseste
— Desculpa, mas preciso de um tempo.
sem que eu entendesse qual era o tempo de que me estavas a falar. Mas agora já sei. Era do meu tempo. O tempo que te neguei nas dezenas de viagens de negócios, o tempo que me esqueci precisares por altura do falecimento da tua mãe, o tempo para te levar às compras, para te levar a ver a foz do rio, o mar, as gaivotas, o tempo certo para voares comigo...
Mas não te falo mais do tempo que se passou entre nós, de certa maneira, semi despercebido. Esse, já não existe. Deixa-me antes falar-te de amor. Do meu amor. O mesmo que nem o tempo nem a vida conseguiram abalar com as artimanhas que dispunham para utilizar. E que permanece intocável, sempre igual, muito azul, como o teu olhar.
O tempo parece não querer passar quando não te vejo, meu amor, e quando chego atrasado aos nossos encontros ainda me dizes que tenha calma, que pacifique o coração, que aprenda a dar mais tempo ao tempo e que nunca há horas perdidas, muito menos espaços em branco, — foi essa a desculpa que deste no outro dia, e ainda no outro, e na semana passada também — mas eu acredito em tudo aquilo que me dizes, senão mesmo porque a tua voz doce e serena já é por si mesma tão infinita como o amor, onde se contam sempre todos os minutos, todos os segundos, todos os leves suspiros que me deixas largar para o ar a cada vez que olhas para trás e lanças um breve aceno final a simbolizar uma partida que quase nunca tem agendada data de regresso.
Mas sabes, foi assim que aprendi a conviver com o tempo que nos separa e foi assim que comecei a fazer das simples esperas, umas estúpidas esperas esperadas. É que nós homens temos o mau hábito de treinar ao longo da vida estes mecanismos da complicação e, como não raras vezes somos capazes de enfrentar os problemas, procuramos sempre transformar a solidão numa espécie de catástrofe imaginária que nos ajuda a esquecer tudo aquilo que mais amamos ou tememos.
Às vezes, só mesmo muito de vez em quando, interrogo-me onde é que vou buscar tanta força para domesticar essas mesquinhices que me tomam o corpo e sacodem a alma. Nunca encontro a resposta. Julgo estar a ganhar terreno para chegar até ti, mas distancio-me cada vez mais. Sinto-te longe, tão longe, mesmo quando até estás do meu lado. E, sem nunca desistir, encosto a cabeça ao teu ombro antes de me largar num choro piegas e infantil, rapidamente abafado pelas tuas palavras proferidas com instinto maternal de quem tem um filho a quem roubaram o cão.
Porém, meu amor, é no teu olhar azul que encontro a paz. É nos teus passos que eu encontro um caminho. É na tua voz pausada que eu encontro a luz. A mesma luz que se extinguiu em mim no dia que fizeste as malas e disseste
— Desculpa, mas preciso de um tempo.
sem que eu entendesse qual era o tempo de que me estavas a falar. Mas agora já sei. Era do meu tempo. O tempo que te neguei nas dezenas de viagens de negócios, o tempo que me esqueci precisares por altura do falecimento da tua mãe, o tempo para te levar às compras, para te levar a ver a foz do rio, o mar, as gaivotas, o tempo certo para voares comigo...
Mas não te falo mais do tempo que se passou entre nós, de certa maneira, semi despercebido. Esse, já não existe. Deixa-me antes falar-te de amor. Do meu amor. O mesmo que nem o tempo nem a vida conseguiram abalar com as artimanhas que dispunham para utilizar. E que permanece intocável, sempre igual, muito azul, como o teu olhar.
Renato Carrasquinho

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